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Política Internacional
e Diplomacia |
62ª
ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES
UNIDAS
DISCURSO
DA SECRETÁRIA DE ESTADO FRANCESA
ENCARREGADA DAS RELAÇÕES
EXTERIORES
E DOS DIREITOS HUMANOS, RAMA YADE
Nova York, 1º de
outubro de 2007
Senhoras e Senhores
Ministros,
Senhora Diretora-Adjunta,
Senhora Representante Especial,
Senhoras e Senhores Embaixadores,
Senhoras e Senhores,
Caros Amigos,
Menos
de um ano após a conferência
“Libertemos as crianças
da guerra”, realizada em Paris
no mês de fevereiro passado, sob
a co-presidência da França
e do UNICEF, estamos hoje novamente
reunidos para evocar o trágico
destino das crianças-soldados.
Sua participação demonstra
nossa determinação comum
em continuar lutando contra esse flagelo.
250.000.
Este é o número de crianças
associadas aos grupos e forças
armados, tão grande que só
pode causar perplexidade. Meninos e
meninas recrutados à força
ou supostamente voluntários,
utilizados por um grupo armado, rebelde
ou pró-governamental e até
mesmo pelas forças armadas regulares
combatem com armas nas mãos ou
realizam pesadas tarefas e missões
perigosas, quando não são
reduzidos à condição
de escravos sexuais. Alternadamente
vítimas e carrascos, eles vivem
imersos num clima de violência
que é a própria negação
de sua infância.
A
vida dessas crianças, na maioria
das vezes, é destruída
para sempre. Um vez terminados os conflitos,
sua reinserção é
particularmente difícil, tanto
por causa dos traumas vividos, quanto
pelo ostracismo a que são relegados.
É nosso dever romper esse círculo
vicioso da violência e da indiferença.
Diante
da amplitude e da gravidade desse drama,
o que fizemos?
Onze
anos após o lançamento
do estudo de Graça Machel, documento
fundador que revelara a trágica
condição das crianças
nos conflitos armados, um primeiro balanço
mostra que não permanecemos com
os braços cruzados.
No
âmbito político, um representante
especial do Secretário-Geral
das Nações Unidas sobre
as crianças e os conflitos armados
foi nomeado há dez anos. Isso
possibilitou a profunda sensibilização
dos Estados, das organizações
e dos programas. Esse representante
tem a incumbência de evitar que
nosso compromisso sofra uma recaída.
Permitam-me saudar o papel fundamental
da Srª Coomaraswamy, que nos deu
a honra de estar hoje aqui presente
e que nos exporá um pouco mais
tarde os resultados da atualização
do Estudo Machel.
Nós
adquirimos, aliás um arsenal
normativo admirável.
O
protocolo facultativo à convenção
sobre os direitos da criança
relativo às crianças nos
conflitos armados, aprovado no ano 2000,
e que representa um avanço significativo
em matéria de prevenção,
já foi ratificado por aproximadamente
120 países. Devemos trabalhar
por sua universalização
e eu exorto os Estados Unidos, que ainda
não subscreveram esse protocolo,
a fazer a sua adesão o mais rapidamente
possível.
Corolário
dessa etapa preventiva, o Estatuto de
Roma elevou à condição
de crime de guerra imprescritível
a utilização e o recrutamento
de crianças de menos de 15 anos.
Porém, denunciar um crime não
basta. É necessário também
que a luta contra a impunidade não
seja uma expressão vazia. Não
é esse o caso e só temos
a nos felicitar pela ação
determinante nessa questão do
Tribunal Penal Internacional. Vale lembrar
que o primeiro processo do TPI será
o de Thomas Lubanga, acusado de ter
recrutado para suas milícias
milhares de crianças. Devemos
reforçar nosso apoio ao Tribunal
permitindo-lhe particularmente julgar
aqueles que são acusados e que
muitas vezes são responsáveis
por abusos com relação
às crianças, seja em Uganda,
seja no Darfur. Prender esses suspeitos
é uma obrigação,
moral, mas também legal.
O
Conselho de Segurança, por sua
vez, foi mobilizado. Ele incentivou
a instalação no local
de um mecanismo altamente inovador de
coordenação entre agências.
Com base nas informações
colhidas pelo mesmo, relatórios
da representação especial
do Secretário-Geral e graças
a um diálogo com os representantes
dos países interessados, o Conselho
de Segurança dirige recomendações
precisas aos governos, assim como aos
grupos rebeldes, a fim de prevenir o
recrutamento de crianças-soldados,
obter sua libertação e
facilitar a sua reinserção.
Meu
país preside o grupo de trabalho
sobre as crianças e os conflitos
armados desde a sua criação
pelo Conselho de Segurança, em
2005. Estamos muito felizes com os resultados
tangíveis que o grupo de trabalho
já produziu. Vários grupos
rebeldes, como os Karens, na Birmânia,
as Forças Novas, na Costa do
Marfim, ou o MLS sudanês, bem
como alguns governos renunciaram, nessas
instâncias, a lançar mão
das crianças-soldados. A esse
respeito, quero saudar muito particularmente
os avanços substanciais registrados
recentemente no Chade e, sobretudo,
na Costa do Marfim.
Eu
gostaria de saudar por fim a ação
do UNICEF, que desenvolveu em 1997 os
“Princípios do Cabo”,
documento chave que traça os
grandes eixos da ação
de campo. O UNICEF e as outras agências
e programas das Nações
Unidas, sobretudo, mas também
numerosas organizações
não-governamentais, realizaram
em campo, com abnegação,
um trabalho primordial. Uma única
cifra permite avaliar a imensidão
da tarefa a ser realizada: desde 2001,
95.000 crianças já puderam
seguir programas de amparo e reinserção.
Por
que então organizarmos esta reunião?
me perguntarão os Senhores. O
quê mais podemos fazer, visto
que a mobilização já
se mostra real e substancial?
Esta
reunião é simplesmente
indispensável porque essas ações
que acabo de descrever infelizmente
ainda não permitiram que erradicássemos
definitivamente esse flagelo.
A
atualidade imediata, marcada principalmente
pelo ressurgimento das crianças-soldados
em campos de batalha do Sri Lanka, vem
nos lembrar a fragilidade dos progressos
registrados. Além disso, diante
da imensidão das necessidades,
os recursos são insuficientes,
tanto mais que as ações
de reinserção são,
por definição, onerosas
e requerem um financiamento a longo
prazo. Por fim, convém apreendermos
melhor as necessidades específicas
das meninas, reforçando seu acesso
aos programas de reinserção.
Conseqüentemente,
é fundamental reforçarmos
nosso compromisso comum nos planos político
e financeiro.
Foi
com essa preocupação que
a França e o UNICEF tomaram a
iniciativa, no início do ano,
de organizar a Conferência Ministerial
de Paris. 59 países subscreveram
então o documento “Compromissos
de Paris” e manifestaram seu apoio
aos “Princípios de Paris”.
Agradecemo-lhes calorosamente. Nossa
reunião de hoje é um prolongamento
direto desse exercício. Ela visa
primeiramente ampliar o reconhecimento
internacional desses dois importantes
textos. Não me estenderei sobre
os Princípios, que lhes serão
apresentados pela Diretora Executiva
Adjunta do UNICEF e co-presidente desta
reunião, Srª Hilde Johnson.
Salientarei simplesmente que esses princípios
constituem uma atualização
mais do que oportuna dos princípios
da Cidade do Cabo, com destaque para
a difícil questão das
meninas, bem como as da justiça
e das crianças refugiadas ou
deslocadas de suas residências.
Lembrarei,
no entanto, os principais elementos
dos Compromissos. Ao subscrevê-los,
os países comprometem-se a:
-
pôr um fim à utilização
e ao recrutamento ilegais de crianças
por grupos ou forças armadas;
- procurar obter a libertação
de todas as crianças-soldados,
sem condições e a qualquer
momento, inclusive durante conflitos
armados e sem esperar a conclusão
de acordos de paz;
- lutar contra a impunidade, julgando
e não anistiando, especialmente
por ocasião da conclusão
de acordos de paz, aqueles que tenham
recorrido às crianças-soldados;
- tratar as crianças-soldados
acima de tudo como vítimas, submetendo-as
a uma justiça para menores e
até a processos não-judiciais
e não considerando-as como desertoras
em caso de abandono de seu posto;
- levar em conta de maneira apropriada
a eventual condição de
criança-soldado nos processos
de asilo e não expulsar uma criança
para um país onde corra o risco
real de ser ilegalmente alistada ou
utilizada por forças ou grupos
armados;
- fazer com que os financiamentos em
matéria de desarmamento, desmobilização
e reintegração tenham
uma duração suficiente
para permitir uma verdadeira reinserção.
Trata-se,
portanto, de fortes compromissos de
natureza certamente política,
mas que vão além dos textos
anteriores. Eles são indispensáveis,
se quisermos banir a prática
ignominiosa do recrutamento ilícito
de crianças-soldados. Espero
que muitos dos Senhores possam subscrevê-los
por ocasião desta reunião.
Passaremos
igualmente em revista hoje as ações
empreendidas pelas diversas partes integrantes
desde a conferência de Paris.
A esse respeito, tenho o prazer de anunciar
que a França agora vai financiar,
no âmbito de sua cooperação,
cargos de adidos que seguirão
especialmente as questões das
crianças-soldados nos conflitos
armados na região dos Grandes
Lagos. Ela vai continuar apoiando as
ações da sociedade civil,
particularmente coalizões do
tipo “Stop the use of child soldier”
e “Watchlist on children and armed
conflict”, cujo papel fundamental
deve ser destacado, e os programas de
desmobilização como o
recente projeto do UNICEF no Chade.
Proponho-lhes
enfim, em comum acordo com o UNICEF,
com o objetivo de manter nossa mobilização,
criarmos um “Fórum de acompanhamento
dos Compromissos de Paris”. Ele
terá por vocação
reunir regularmente, de modo informal,
todas as partes interessadas, ou seja
os países envolvidos nessa tragédia,
os financiadores, bilaterais ou multilaterais
e, naturalmente, a representante especial
do Secretário-Geral. Poderão
assim ser mais bem implementadas, de
forma concreta, as recomendações
relativas à desmobilização
e à reinserção
das crianças-soldados.
Agradeço
por sua atenção e tenho
agora o prazer de passar a palavra para
a diretora executiva adjunta do UNICEF,
Srª Hilde Johnson.
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