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Política Internacional e Diplomacia

ENTREVISTA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA, NICOLAS SARKOZY,
PARA OS CANAIS DE TELEVISÃO “FRANCE 2” E “TF1”

- TRECHOS -

Paris, 20 de setembro de 2007

(...)

Pergunta: Pudemos ver os efeitos imediatos, pelo menos na Bolsa, da queda da taxa do FED, o “Federal Reserve” americano. O Senhor não tem vontade de dizer uma coisa ao Sr. Trichet: baixe sua taxa em nome do BCE, sem tocar em sua independência?

Resposta: Em primeiro lugar, acredito na independência do Banco Central Europeu e até votei a favor dessa independência.

P.: Todo mundo diz isso, mas, ao mesmo tempo...

R.: Não, mas eu digo, enfim... É extraordinário, o Sr. Trichet não pode dizer que é independente e que não aceita que se discuta sua política monetária.

P.: O Senhor assim mesmo o critica, portanto...

R.: Não critico o Sr. Trichet, que certamente é uma pessoal muito respeitável. Digo simplesmente que veja o que se passa. O Banco Federal americano, diante da situação que temos na economia, baixa suas taxas. O Banco Central Europeu não o faz. Quando o Banco Central americano baixa suas taxas, tudo retoma o ritmo. Quando nós deixamos de baixar as nossas, afundamos. Existe aí um problema. Devo acrescentar que quando o euro se valoriza em 10 centavos, a Airbus perde um bilhão. Temos um euro que vale praticamente 1,40 por dólar e precisamos prestar atenção às condições de competitividade. Venho lutando para que as empresas francesas possam funcionar na competição mundial. Então, temos que enfrentar um dumping ambiental, um dumping fiscal, um dumping social e, agora, um dumping monetário. Não digo que eu tenha razão, desejo apenas que se possa discutir a respeito de tudo isso. Enfim, quero que se estabeleçam regras no capitalismo financeiro mundial, que se deixe de promover os especuladores e que sejam promovidos os empreendedores. O que aconteceu na crise é altamente escandaloso: as agências de notação não fizeram seu trabalho, não há transparência suficiente e a economia mundial não foi penalizada pelo comportamento insensato de algumas centenas de especuladores.

P.: Portanto, o Senhor diz nas entrelinhas: Sr. Trichet, baixe as taxas, isso seria bom para nós.

R.: Eu digo ao Sr. Trichet, não nas entrelinhas: veja o que os outros estão fazendo. O inferno nem sempre são os outros.

P.: Angela Merkel concorda com o Senhor a respeito desse e de outros assuntos? Porque ela não parece...

R.: Angela Merkel é uma pessoa realmente admirável, uma parceira e uma amiga. Mas existe uma história alemã. Os alemães lembram-se da época em que o marco nada valia e onde cada um ia, com seu carrinho de mão cheio de notas que nada valiam, trocá-las no banco. É uma história que...

P.: Isso foi nos anos 30, no início dos anos 30.

R.: Exatamente, no início dos anos 30. Mas cabe a mim convencer, conduzir esse debate. Não sou a favor de um euro fraco. Digo simplesmente que não podemos ser a única região do mundo que não utiliza sua moeda a serviço do crescimento e do emprego e que não tem como única preocupação que não haja inflação, o que é bastante louvável. Mas acho que, na competição mundial, o risco de inflação é muito menor do que o de um crescimento átono e um desemprego excessivamente elevado.

P.: Mas, na Europa, tem-se assim mesmo a impressão de que, de tempos em tempos – ora, dizem isso – você incomoda um pouco seus parceiros...
Algumas vezes fala-se até de arrogância.
Pois é, vão dizer: “Olha só, lá vem novamente a arrogância francesa.” Trata-se de uma outra versão, mais moderna, talvez, expressa por Nicolas Sarkozy: tem-se a impressão de que o Senhor empurra um pouco a Srª Merkel. Quando o Senhor diz que ela vem da Europa Oriental, da Alemanha Oriental, diz-se que não é simpático, talvez, falar dessa maneira. Quando o Senhor dá mostras de se indignar, ou de se preocupar com o que dizem os ministros das Finanças do euro, porque eles acham que não se estava caminhando suficientemente rápido com relação às reformas.

R.: Srª Chabot...

P.: Portanto, existe a arrogância francesa, ou a impaciência de Nicolas Sarkozy?

R.: Nem um, nem o outro! Srª Chabot, a França é um país fundador da Europa e nós tivemos um referendo no qual 55% dos francesas disseram não à Europa. A Srª acha que recebi o mandato para continuar construindo uma Europa que se afaste um pouco mais a cada ano dos milhões de franceses da Europa? A Srª acha que é isso, que eu devia fazer como antes? Como antes? Ou seja, que 55% de nós votamos contra a Constituição de Valéry Giscard d’Estaing e eu devo continuar como antes? A demagogia absoluta? Nada dizer? Esperar? A França está de volta por quê? Assumi as minhas responsabilidades, especialmente a respeito da Constituição e do tratado simplificado. Os 27 parceiros aprovaram o tratado simplificado. Foi a França que impulsionou isso, aliás, com o trabalho admirável de Angela Merkel. Mas quero me reservar o direito, em nome dos franceses, de colocar os verdadeiros problemas da Europa! Afinal de contas, a Europa não tem que ser uma peneira! Eu, e é ótimo começarmos pela China, eu quero o fim da ingenuidade. Por que importaríamos produtos chineses que não respeitem qualquer das regras restritivas ambientais que, por outro lado, nós impomos aos nossos empresários? A Europa não deve ser protecionista, mas a Europa é feita para se proteger. Lutei a respeito da preferência comunitária, porque achoo que isso é necessário, para defender particularmente nossos agricultores. Por que importar na Europa produtos que não respeitem qualquer uma das regras de rastreabilidade, que, por outro lado, impomos aos nossos criadores e agricultores? É meu dever fazê-lo. E tenho a impressão de que, ao contrário, esse discurso, ao invés de irritar, como diz a Srª, é bastante ouvido na Europa. Desejo uma política para a energia. Desejo uma política para a imigração. Desejo uma política para a defesa comum. Nesse aspecto também, apontam-se os déficits da França; mas a França é o país que, juntamente com a Inglaterra, paga mais pela defesa da Europa! É mais fácil não possuir déficits, quando seu orçamento para a defesa é igual a zero! Enquanto que o nosso é de 2% do PIB.

P.: Já que o Senhor citou a imigração, assunto atualmente em debate: com o projeto da lei de Brice Hortefeux, será necessário um dia aplicar quotas, por país, ou por profissão?

R.: Sim. Digo-o de maneira muito clara: espero chegarmos a estabelecer uma quota, todo ano, após um debate no parlamento, com um número limite de estrangeiros a serem recebidos em nosso território. Desejo igualmente que, dentro desse limite, reflitamos a respeito de uma quota por profissão, por categoria. Isso é extraordinário! Os Senhores sabem que apenas 7% da imigração atual é uma imigração de trabalho? Como é possível integrar-se na França sem um trabalho? Desejo elevar o número de imigrações a trabalho pelos menos à metade. Além disso, naturalmente, uma quota por regiões do mundo. Todos os países desenvolvidos o fazem. Todos os países democráticos o fazem. Na França, quando pronunciamos a palavra imigração, imediatamente somos acusados! Mas isso é inverossímil! A política de imigração de um país diz o que será desse país dentro de 30 ou 40 anos. Podemos ter vontade de dizer: queremos receber em nosso território mulheres e homens que se integrarão. Acho perfeitamente normal o fato de se aprender a falar francês antes de vir à França. Isso não é absurdo, quando se quer ter uma chance de poder ser integrado.

P.: E os testes de DNA, isso o choca, como a Fadela Amara, por exemplo, os testes de DNA para os reagrupamentos familiares?

R.: Mas o teste de DNA, em primeiro lugar, é na base do voluntariado. Ele tem por objetivo, para uma família que venha de um país onde não existe o estado civil, provar que as crianças são realmente suas e, portanto, poder reagrupá-los na França. Os Srs. sabem que esse teste de DNA existe em 11 países da Europa – alguns dos quais são socialistas, como a Grã-Bretanha? Como pode isso não causar qualquer problema nesses países e aqui ser tema de debate?

P.: Porque, aqui, diz-se que ele é reservado às razões médicas, aos franceses, por exemplo, ou quando há algum problema com a justiça. E aí, imediatamente, alguns ficam chocados. Citamos membros de seu governo, que vêm da esquerda e que dizem – inclusive na maioria, aliás: “Achamos isso chocante.”

R.: Sim, mas, respeito perfeitamente sua opinião. Se me perguntarem se isso me choca, a resposta é não.

(...)

P.: Existem más surpresas, ou pelo menos surpresas decepcionantes (a propósito dos membros do governo)?

R.: Acho que Bernard Kouchner é um ministro das Relações Exteriores que honra a França.

P.: E a declaração dele sobre o Irã incomodou o Senhor?

R.: Não... Em primeiro lugar, o que Bernard Kouchner fez no Darfur e no Líbano é admirável. Eu não teria empregado a palavra “guerra”, mas ele mesmo se explicou. Sobre o Irã, trata-se de uma questão extremamente difícil. O Irã está tentando dotar-se da bomba nuclear e eu disse: isso é inaceitável. Digo aos franceses: isso é inaceitável. Como podemos convencê-los a renunciar a esse projeto assim como a comunidade internacional convenceu a Coréia do Norte e a Líbia a renunciar aos seus projetos? Através da discussão, do diálogo, das sanções. Se as sanções atuais não forem suficientes, desejo sanções mais fortes.

P.: É o que o Senhor irá propor aos europeus ou à comunidade internacional, já que estará em Nova York dentro de alguns dias?

R.: É claro, mas isso não é exclusivo de um diálogo com os iranianos. Trata-se de uma grande civilização, a sociedade iraniana, e ela merece mais do que o que conhece hoje. Quanto luto para que haja energia nuclear civil num determinado número de nações árabes, é para mostrar aos iranianos que, no meu entender, o que é proibido é a energia nuclear militar, não a civil, que é a energia de amanhã. Trata-se de uma questão extremamente difícil, mas a França não quer a guerra.

P.: As declarações de Jean-Pierre Jouyet, que diz que, finalmente, talvez não tenhamos necessidade de um referendo para decidir a respeito da eventual entrada ou não da Turquia na União Européia, o Senhor as toma como suas?

R.: Não, essa é a opinião de Jean-Pierre Jouyet. Eu teria propostas a fazer quando chegasse o momento, no âmbito dos trabalhos da comissão Balladur. De minha parte, está bem claro: não creio que a Turquia tenha seu lugar na Europa, por uma simples razão: ela situa-se na Ásia Menor. Simplesmente, a Turquia é um grande país e o que desejo propor à Turquia é uma verdadeira parceria com a Europa, sem ser uma integração à Europa. Esta é, aliás, a proposta que fiz juntamente com o grupo de sábios, para que se refletisse a respeito do futuro da Europa e da questão das fronteiras da Europa.

(...)

P.: E quando a sua esposa, Cecilia, deseja não depor perante a comissão de inquérito da Assembléia Nacional sobre o caso das enfermeiras búlgaras e do médico palestino – que depois tornou-se búlgaro – ela lhe pediu conselho antes?

R.: Mas, não é ela. Ela teria desejado fazê-lo. Sou eu. Achei que se alguém... Escutem, ela fez um trabalho absolutamente admirável. Foi necessário ir buscar essas infelizes enfermeiras. Já fazia oito anos e meio – oito anos e meio! – que elas sofriam, prisioneiras que eram! E Cecilia fez um trabalho absolutamente admirável a esse respeito. Mas eu achei que, com o trabalho que ela fez, se alguém tinha que prestar contas era, antes, eu, que a havia enviado, e não ela. (...).

 
 

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