|
Política Internacional
e Diplomacia |
ENTREVISTA
DO MINISTRO FRANCÊS DAS RELAÇÕES
EXTERIORES
E EUROPÉIAS, BERNARD KOUCHNER,
PARA O JORNAL “LE FIGARO”
Paris,
20 de setembro de 2007
Pergunta: O diretor
da Agência Internacional de Energia
Atômica (AIEA) criticou seu emprego
da palavra “guerra”. O Senhor
está pronto a aceitar o acordo
que ele obteve no mês de agosto
com Teerã?
Resposta:
Estou pronto a aceitar esse acordo e
conceder o tempo necessário ao
diretor da AIEA para que vá ao
local e verifique se está sendo
aplicado. Tenho estima e respeito por
El Baradei. Na comunidade internacional,
eu digo que se deve sem dúvida
dar uma chance suplementar para que
se possa chegar a um acordo entre o
Ocidente e o Irã, com base numa
suspensão do programa de enriquecimentos
de urânio.
P.:
A França deveria ter um papel
intermediário entre o Ocidente
e o Irã?
R.:
Sim, é essa a nossa intenção.
Fui tão mal compreendido que
é hora de restabelecer a honestidade
e a transparência da minha atitude.
Nós não somos hostis ao
diálogo com os iranianos, ao
contrário, sempre dissemos isso.
Eu mesmo recebi em Paris Ali Larijani
(presidente do Conselho de Segurança
iraniano, chefe da diplomacia e da defesa
do Irã); em Nova York, tenho
um encontro marcado com meu colega iraniano;
não se passa uma semana sem que
eu telefone ao Sr. Larijani. Nós
dizemos a todos os que interpretaram
mal palavras tomadas fora de seu contexto
que estamos prontos a continuar dialogando
muito com os iranianos, sem temer fracassos.
Nenhum fracasso nos fará renunciar
ao necessário diálogo.
Mas essas discussões não
podem durar anos: precisamos encontrar
uma solução. Não
quero sobretudo atribuir intenções
ao Irã, mas alguns observadores
acreditam que o acordo que o Irã
vai assinar com a AIEA é uma
maneira de se ganhar tempo. Todos os
especialistas do planeta estão
preocupados.
P.:
E os países árabes?
R.:
Eles estão ainda mais preocupados
do que nós. Para resumir, sim
para o diálogo permanente com
o Irã. Sim para os esforços
empreendidos pela AIEA. Durante esse
tempo, deixem-nos imaginar sanções
específicas, a fim de persuadir
os iranianos de nossa seriedade. Sou
um partidário do multilateralismo.
Meu desejo mais caro seria que essas
sanções passassem pelo
Conselho de Segurança. Mas isso
não nos impede de trabalhar pela
preparação de sanções
específicas com nossos parceiros
europeus.
P.:
O Senhor estaria pronto a ir à
Teerã, se fosse convidado?
R.:
Sim.
P.:
A França deveria posicionar-se
igualmente como intermediária
sincera a respeito do conflito entre
israelenses e palestinos?
R.:
Obrigado por acrescentar essa
fórmula. Porque se for para atrapalhar
negociações que parecem
estar dando resultado, talvez, sobre
alguma coisa, fosse bom não se
meter. Desde a criação
do Estado de Israel, a França
tem estado do seu lado. Estamos fortemente
decididos a continuar lutando por sua
existência, é claro, mas
também por sua segurança.
Mas, ao mesmo tempo, somos amigos dos
palestinos. A França é
um dos raros países a poder dizer
que é amiga das duas partes.
A França está evidentemente
disponível para fazer com que
a paz progrida. Atualmente, tenho a
impressão de que uma esperança
nasceu, pois está passando corrente
entre Ehud Olmert (Primeiro-Ministro
israelense) e Abou Mazen (Presidente
da Autoridade Palestina). O Presidente
da República [Nicolas Sarkozy]
e eu estamos decididos a acompanhar
essa iniciativa e a participar da conferência
internacional anunciada por Condi Rice
(Secretária de Estado norte-americana)
para novembro, se formos convidados.
P.:
O que os Senhores esperam dessa conferência?
R.:
Se pudermos chegar a um reconhecimento
de um Estado Palestino, mesmo que simbólico,
ficaremos felizes. Sabemos que ainda
restarão muitas questões
práticas a serem resolvidas:
fronteiras, desmilitarização,
refugiados, etc. Sobre essas questões,
já existem aliás vários
planos, que podem servir de ponto de
partida.
P.:
Sua preferência é pelos
acordos de Genebra?
R.:
Romanticamente, intelectualmente, sentimentalmente,
sim. Politicamente, é preciso
ser pragmático: é preciso
tomar a realidade do terreno tal qual
ela é. A vantagem da França
é de ser sentimentalmente próxima
às pessoas e ser reconhecida
como tal. E poder dar provas de obstinação
para, há sessenta anos, vir tentando
resolver esse conflito.
P.:
No Líbano, seus esforços
por um diálogo nacional estão
em vias de serem bem sucedidos?
R.:
Estive em Beirute na semana passada.
Creio que progredimos um pouco, que
o espírito da Celle Saint-Cloud
(conferência em que Kouchner reunira
os representantes dos 14 partidos libaneses
em conflito, em 14 de julho passado)
estava começando a soprar. O
cimento estava começando a adquirir
consistência entre esses protagonistas
tão diversos, que foram inimigos
por muito tempo. Mas acabo de saber,
com uma viva emoção, do
terrível atentado que acaba de
ser cometido contra o deputado Antoine
Ghanem, que eu havia recebido na Celle
Saint-Cloud. A França está
do lado do Líbano face a essa
política do terror. Os que a
inspiram devem saber que jamais conseguirão
atingir seus objetivos. Diante da aproximação
da eleição presidencial,
a hora é de união de todos
os libaneses. O diálogo político,
para o qual Antoine Ghanem havia contribuído,
continua sendo a única solução
para se sair da crise.
|