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Política Internacional e Diplomacia

VISITA AO IRAQUE

ENTREVISTA DO MINISTRO FRANCÊS DAS RELAÇÕES EXTERIORES E EUROPÉIAS,
BERNARD KOUCHNER, PARA A TELEVISÃO IRAQUIANA

Bagdá,21 de agosto de 2007


Pergunta: Sua vinda ao Iraque ocorre logo após o encontro do presidente Sarkozy com o presidente G.W.Bush. Existe alguma ligação entre os dois?

Resposta: O Sr. tem seus comentários, mas eu conheço a realidade.

Desde o início, ou seja, há três meses, fizemos um apanhado de um certo número de crises. Eu conheço um pouco as crises, que vivencio há trinta ou quarenta anos. Propus que um certo número de iniciativas francesas fossem tomadas com relação ao Darfur, ao Líbano, ao Iraque, à Palestina e Israel. Aqui estamos. Mas isso nada tem a ver com o encontro muito simpático e necessário entre o presidente Bush e o presidente Sarkozy. Não acredite que tudo o que lê na imprensa seja verdadeiro. Neste caso, é falso. Nós não pedimos a opinião dos americanos. Nós os avisamos. Os americanos são nossos amigos. E, aos amigos, acima de tudo, devemos a verdade. É assim que agimos. Nós viemos ao Iraque e é isso que conta. Não foi absolutamente depois de qualquer decisão dos Estados Unidos, que, aliás, não o esperavam. No dia anterior a minha chegada, ou seja, no sábado passado, avisei à Srª Condoleezza Rice de minha vinda aqui, assim como aos meus amigos inglês, David Miliband, alemão, Franck-Walter Steinmeier, [Javier] Solana e à Presidência Portuguesa [da U.E.]. Avisei a todos eles.

P.: Algumas pessoas criticam a França por ter demorado a voltar, quando ela teria podido exercer uma influência sobre determinados grupos iraquianos. O que o Sr. diz a respeito?

R.: Não. Não acho que teríamos tido influência suficiente. Como o Sr. sabe, existem duas maneiras de ver as coisas. Pode-se fazer muitas observações, pode-se sempre ser negativo. Mas eu prefiro os que fazem menos observações e são positivos.

Poderíamos fazer de outra forma, mas aqui estamos e somos os primeiros. Há vinte anos um ministro das Relações Exteriores não vinha a Bagdá, desde Roland Dumas.

O Sr. pode dizer que isso não é muito, mas eu poderia ter esperado cinco anos ou mais. Fizemos o que nos foi possível. Veremos se isso é útil. A França era contrária à intervenção americana, é verdade. Todo mundo sabe disso. E havia uma maneira de se desviar do Iraque que não é mais a nossa. Achamos, ao contrário, que é preciso estar ao lado de nossos amigos iraquianos e de todas as comunidades e ouvi-las. Foi o que fizemos. Espero que seja positivo. Ouvindo-o falar, isso não parece ser grande coisa. Espero que venha a mudar de opinião.

P.: Qual era o objetivo de sua visita?

R.: Era o de ouvi-lo, Senhor. E, por enquanto, o Sr. tem uma posição crítica. Não foi o que ouvi absolutamente por parte dos iraquianos com os quais me encontrei, vindos de todas as comunidades políticas e religiosas, de todas as comunidades iraquianas. Elas ficaram felizes com a nossa vinda. Este é o sentimento geral. Acho que foi importante e isso valida a decisão que tomamos de vir ouvi-los.

Mas o Iraque é um país complicado, numa região complicada, perigosa, onde as reações são sempre muito violentas, onde os países vizinhos desempenham um papel no interior do país. Estamos tentando portanto compreender o que pode ser feito nos âmbitos internacional, europeu e, talvez, francês. Eis a idéia geral.

P.: Qual é a visão que a França tem da situação iraquiana?

R.: Ela não é boa. A situação não é boa e nossa visão é neutra. Mas não completamente neutra. Nós amamos demais este lugar do mundo, com os curdos, os xiitas, os sunitas, os outros, os cristãos, que são muito maltratados aqui. Amamos todas as comunidades que vêm de antigas eras. Não podemos portanto ser completamente neutros.

Nossa visão é a de que vocês, o mundo inteiro, o Oriente Médio pode atravessar uma crise mais profunda ainda do que a que atravessam. Neste momento, nesta região do mundo, é necessário que as comunidades entendam-se, que confiem umas nas outras, olhem-se nos olhos, que não se considerem inimigas a ponto de se manterem permanentemente em guerra. Se compreenderem isso será muito bom. Senão, o Iraque viverá um momento muito difícil, mesmo que tenha havido progressos. Porque progressos foram feitos. A ditadura desapareceu, podemos falar mais facilmente e há uma imprensa mais livre.

Mas acho que o momento é perigoso. E é absolutamente necessário, nesta região do mundo, onde tudo se mescla - a economia, o petróleo, a energia, as bombas atômicas – que haja diálogo entre as religiões, sem confronto e edificação de uma democracia que seja conveniente para os habitantes. Tudo isto é muito importante, pois isso irá alastrar-se. O Líbano conhece essa situação, mas não exatamente da mesma forma. Trata-se de um foco de explosão. A França, e sobretudo a Europa, devem estar presentes. Vamos ver em quê isso vai dar.

P.: O Sr. pôde constatar a verdadeira situação em campo e não a visão que a mídia passa. Qual era a sua visão antes de vir e qual é ela depois de sua vinda?

R.: Não se pode conhecer a situação permanecendo apenas três dias no local, embora já seja muito no âmbito de uma visita ministerial. Mas não é o suficiente.

De longe, a situação parece ser aterradora: mortes, atentados, ataques suicidas, miséria, deslocamentos de população – 4 milhões de pessoas deslocadas ou refugiadas – janelas fechadas, combustível que não se encontra, eletricidade e água que faltam. Não é uma boa situação, pelo que pude constatar.

Mas parece-me, como dizem sobretudo meus interlocutores, que há menos atentados em Bagdá. Em compensação, ataques são feitos em aldeias sem defesa, matando inocentes, como em Bagdá. É muito difícil. Mas o triste é constatar, quando se é amigo do Iraque, que os políticos nem sempre têm consciência da emergência da situação.

Sei que nada é perfeito, que é preciso dar tempo, de pelo menos uma geração, para mudar, que a Constituição é imperfeita, que muitos problemas não foram resolvidos. Mas acho que os iraquianos deveriam ser suficientemente sensatos para dar a impressão, no exterior, de um entendimento, de uma unidade nacional mínima. Do contrário, eles serão o joguete das violências externas. Só há um lugar onde as coisas vão verdadeiramente bem: o Curdistão. Isto é muito curioso, mas muito sensato: os responsáveis curdos queriam fazer secessão em relação ao Iraque de Saddam Hussein. Pois bem, são eles agora que querem a união do país e lutam para que o Iraque seja uma única e mesma pátria. Isso é um progresso. Sei que existem problemas com a Turquia, sei de tudo isso. Não se pode resumir todas essas dificuldades em três dias, é impossível.

P.: Qual era a visão dos políticos com quem o Sr. se encontrou durante a sua visita?

R.: Encontrei-me com os representantes de todos os partidos políticos que fazem parte do Parlamento. Todos os que estão em condições de se apresentar. Na próxima vez, me encontrarei com muitos mais membros da sociedade civil, intelectuais, jornalistas. Já me encontrei inclusive com muitos deles. E tentarei ampliar a minha visão, a minha compreensão. O que há de comum é a vontade de oferecer uma face mais apaziguada e mais democrática do país, a vontade de ver a família, os filhos crescerem nas melhores condições possíveis, com menos perigo, de fazer com que a violência e o atentado político sejam banidos da prática política deste país. Todos eles disseram isso.

Isso é muito importante. Havia também, talvez, uma vontade de ampliar a intervenção, o mandato das Nações Unidas. Como a França é membro permanente do Conselho de Segurança, esta é uma direção de trabalho à qual estivemos muito sensibilizados.

P.: O Sr. acha que a França teve uma atitude de distanciamento do Iraque por causa de seu apoio passado ao regime de Saddam Hussein?

R.: Não sei, mas o Sr. tem razão, a França esteva próxima demais de Saddam Hussein, que era um ditador assustador. Mas também era nosso cliente, aquele a quem vendíamos armas. Ele nos visitou duas vezes. Eu não tinha muito orgulho de tudo isso. Espero que não repitamos os mesmos erros. Mas, de qualquer forma, o ditador não tem mais como prejudicar seu povo. Eu gostaria que se lembrassem, como o Sr., que se acuse Saddam Hussein de ter feito desaparecerem de dois a quatro milhões de seus concidadãos. Eu gostaria que aqueles que mantiveram amizade com ele se lembrassem disso. Isso não significa todavia que a situação seja muito boa e que eu a aceito.

P.: A França estava a par dos atos de Saddam Hussein?

R.: Não o suficiente, mas eu sabia.

P.: Pode-se considerar que a França condena a sua política precedente?

R.: Pode-se considerar que há análises diferentes e que alguns pensavam que era necessário um poder extremamente forte para conter este país. Acho que não era bem assim. Saddam Hussein não era o único ditador e a França não era o único país a lhe vender armas. Todo mundo procurava vender.

 
 

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