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Política Internacional e Diplomacia

VISITA AO IRAQUE

ENTREVISTA DO MINISTRO FRANCÊS DAS RELAÇÕES EXTERIORES
E EUROPÉIAS, BERNARD KOUCHNER, PARA A RTL

Paris, 21 de agosto de 2007


Pergunta: O Senhor está no Iraque, em Bagdá, desde domingo à tarde. Que impressão lhe dá a cidade?

Resposta: Sinistra. Existe um contraste evidentemente muito grande e até chocante, desolador, entre a zona verde, onde se encontram os responsáveis, e o resto da cidade, que foi saqueada é que é inacessível, onde as cortinas de ferro estão abaixadas e onde a vida é difícil: não há escola e água, muito pouco. Só se conta com uma hora e meia de eletricidade por dia.

Eu sei que a zona verde não é Bagdá e que Bagdá não é o Iraque. Portanto, isso não vai muito bem.

P.: Estar no local torna-o mais otimista ou mais preocupado com as possibilidades de reconciliação nacional nesse país?

R.: Preocupado eu já estava e agora estou ainda mais. Mas estar no local não é ter certezas antes de compreender. Para compreender e eventualmente apresentar uma participação, era necessário escutar. Encontrei-me com todos os componentes da sociedade iraquiana e, dentro de alguns minutos, estarei com o Reverendo Emmanuel III, que é o chefe da igreja caldéia. Os cristãos vão mal aqui e são os mais perseguidos. Em todo caso, eles vão embora. Portanto, vi todo mundo. Continuarei me encontrando com eles durante todo o dia. Só depois é que poderei ter uma idéia um pouco mais precisa. Mas era preciso estar aqui, é preciso estar aqui.

P.: Sob que aspecto, para a diplomacia francesa, este era o momento de voltar ao Iraque?

R.: Nós já assumimos há três meses e era preciso estabelecer um calendário. Nós havíamos feito uma lista das crises e, uma a uma, estamos tentando fazer o nosso papel. Mas agora percebo que, vendo de longe, mal nos damos conta do que vai acontecer aqui. Algo formidável vai acontecer aqui e devemos fazer parte disso. Existe uma frase do general de Gaulle que diz “Voltemo-nos em direção ao Oriente”. Acho que, realmente, em função do que irá se decidir aqui, o mundo irá mudar.

P.: O Senhor está fazendo alusão a quê, exatamente?

R.: Aos confrontos religiosos, por exemplo. Aos confrontos comunitários. Ou ao bom entendimento religioso, ao bom entendimento comunitário. Ao destino da paz e da guerra no Oriente Médio. Faço alusão aos choques e à dificuldade que têm as comunidades xiitas e sunitas de se entenderem. Além disso, há também os wahhabitas. Faço alusão à confiança ou à desconfiança que irá reinar entre as comunidades, à guerra ou à paz na realidade, e à posição em relação aos outros.

Existem, em torno do Iraque, países que têm um grande peso, que irão desempenhar um papel nos próximos meses e anos. Isso nos diz respeito. Existe o Irã, existe o problema da energia nuclear no Irã. Existe o problema da relação do Irã com o xiismo. Existem a Arábia Saudita, a Jordânia, o Kuwait e o Líbano.

P.: O Senhor poderia ir a todos esses países?

R.: Não se trata simplesmente de viajar. Trata-se de ter uma opinião e saber o que se pode fazer de positivo e qual o papel que a França pode desempenhar nessa região e, para isso, era necessário ouvir os iraquianos.

P.: Existem alguns comentários críticos sobre a sua viagem que denunciam um realinhamento ao lado dos americanos.

R.: Estou mais habituado às críticas que aos encorajamentos.

P.: Jean-Pierre Chevènement, Noël Mamère...

R.: Jean-Pierre Chevènement? Você diz Jean-Pierre Chevènement? Uma crítica, você diz? Jean-Pierre Chevènement deu um dos apoios mais explícitos ao sangrento ditador Saddam Hussein, de quem nem se lembra mais aqui ter sido responsável pela morte de dois, quatro milhões de seus concidadãos, então faz favor!

P.: Em todo caso, é importante para os Senhores que a França continue distinguindo-se da política americana, risco que os Senhores correm ao ir lá?

R.: A única maneira de não correr risco é deixar de fazer alguma coisa. Nós nos distinguimos muito claramente da política americana. Não fomos partidários da intervenção americana e acho que tínhamos razão em tentar, por meios semelhantes aos empregados no Kosovo, que eram meios próprios à comunidade internacional, meios esses através da ONU, de fazer cessarem crimes perpetrados por Saddam Hussein contra sua própria população.

Mas não vamos voltar ao passado. É muito importante que os iraquianos – e eles se lembram disso – rememorem qual foi a posição da França. Isso nos confere um papel muito particular. E, de fato, nós não passamos pelos americanos. É a primeira vez em vinte anos que um ministro das Relações Exteriores estrangeiro visita o Iraque. Não passamos pelos americanos. Preveni, algumas horas antes de partir, a Srª Rice, assim como preveni meus colegas Miliband, Steinmeier, a presidência portuguesa [da União Européia] e Javier Solana.

P.: O Senhor vai falar das conclusões de sua viagem aos outros ministros das Relações Exteriores europeus?

R.: É claro, pois desejo que haja possibilidades, ações positivas que não sejam apenas as da França. Mas a França tem um papel particular nessa região. Você não imagina a acolhida da França entre todas as comunidades. E quero lembrar que existe uma comunidade católica, aqui, com a qual vou me encontrar dentro de alguns minutos. Foi uma acolhida maravilhosa. Eles esperam alguma coisa. É uma espécie de alívio não tê-los esquecido. Antes, havia uma atitude que consistia em dizer “Circulem, não há nada para ver aqui, é tão complicado, está tão perdido que não vale a pena cuidar disso”. Pois bem, essa não é a atitude atual da França.

P.: Houve portanto uma evolução em relação à presidência de Jacques Chirac?

R.: Houve também uma evolução da situação. Acho que agora é o momento. Acho que todo mundo sabe que os americanos não poderão retirar esse país da dificuldade sozinhos. Portanto, eu disse e repito: quanto mais os iraquianos pedirem a intervenção da ONU, mais ela os ajudará. A Europa, é verdade, deve desempenhar um papel e espero que haja outros ministros das Relações Exteriores visitando o Iraque. É o que desejo.

 
 

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