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Política Internacional
e Diplomacia |
ENTREVISTA
DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA,
NICOLAS SARKOZY,
PARA O JORNAL POLONÊS “GAZETA
WYBORCZA”
POR OCASIÃO DE SUA VISITA À
POLÔNIA
-
TRECHOS -
Paris,
14 de junho de 2007
(...)
Pergunta:
Senhor Presidente, falando concretamente,
qual é o objetivo de sua visita
à Polônia?
Resposta:
O objetivo é tentar convencer
os dirigentes poloneses de que a Polônia
tornou-se tão importante na Europa
que precisamos dela para obter um compromisso
sobre o tratado simplificado. Além
disso, vou lhe dizer uma coisa: conheço
a alma polonesa, ela é orgulhosa
e ir visitá-la é ter consideração
pela nação polonesa. Não
sou do tipo que diz pertencer a um velho
país fundador da Europa e vocês
são os que acabaram de chegar.
Não é esta a minha concepção.
Vocês ocupam o lugar que lhes
cabe de direito na Europa. Vocês
têm direitos e responsabilidades.
Isto não se diz por telefone,
é preciso haver um encontro e
é por esta razão que estou
visitando o país.
(...)
P.:
Quais são as prioridades de sua
ação no campo da política
externa e da segurança comum?
R.:
A PESC [Política Externa de Segurança
Comum] é uma política
ainda jovem e frágil, mas absolutamente
necessária. No mundo incerto
no qual vivemos, a União Européia
deve falar a uma só voz para
estar em condições de
ter realmente um peso real e para promover
de modo eficaz nossos interesses e nossos
valores.
P.:
Quais são as suas prioridades
no que diz respeito às relações
franco-russas? Qual é o papel
da UE nessas relações?
R.:
A solidariedade entre os países-membros
da União Européia é
um princípio fundamental. Por
essa razão, a França é
plenamente solidária à
Polônia. Essa solidariedade é
expressa de uma maneira que pode ser
muito concreta, como ocorre na questão
do embargo russo sobre as exportações
de carne polonesa.
Estou
convencido de que a Rússia é,
para a União, um parceiro obrigatório:
precisamos basear nossas relações
em resultados concretos, em particular
nas áreas prioritárias
como a energia, o espaço, a aeronáutica,
o fortalecimento do estado de direito,
bem como o intercâmbio entre empresas
civis.
A
construção de espaços
de cooperação entre a
União Européia e a Rússia
é uma garantia de paz e prosperidade
para o continente europeu como um todo.
Isto é do interesse da Polônia
e, além dela, de todos os países.
P.:
O Senhor insistiu na importância
das relações da França
com os Estados Unidos. Podemos esperar
uma mudança nas relações
franco-americanas? Que lugar devemos
atribuir à relação
entre a União e os Estados Unidos?
R.:
Quero trazer um novo espírito
para as relações entre
a União Européia e os
Estados Unidos, bem como para as nossas
relações bilaterais.
Durante
a campanha, tive várias vezes
a oportunidade de lembrar meu profundo
apreço pela amizade que une a
França e os Estados Unidos. Nós,
europeus, compartilhamos com os americanos
muito mais do que interesses, mas valores
comuns.
Nem
por isso, aliados quer dizer “alinhados”;
e devemos aceitar o fato de termos eventualmente
algumas discordâncias.
P.:
Uma pergunta a respeito da nova situação
na França após a vitória
da direita: os extremos foram marginalizados,
os comunistas, os esquerdistas, a Frente
Nacional. Qual é a sua visão
da nova política francesa sem
extremos?
R.:
Os extremos são um problema para
a democracia. Milhões de pessoas
acham que os partidos não-republicanos
expressam melhor as suas aspirações.
Isso revela uma desconfiança
com relação aos políticos.
Isso refreia a modernização
de um país, visto que todos os
problemas são vividos de modo
emocional e nunca de maneira razoável.
Eu estava convencido de que podíamos
baixar o escore da Frente Nacional para
que os partidos que respeitam os valores
republicanos ocupassem um espaço
público tão grande quanto
possível. Conseguimos.
P.:
O que significa para o Senhor, hoje,
a identidade francesa?
R.:
A França não é
simplesmente uma democracia. A França
é a República, é
a separação entre a Igreja
e o Estado, é a igualdade entre
homens e mulheres, são os valores
republicanos, é a nossa identidade
francesa. E eu disse aos franceses:
não nos demos suficientemente
o trabalho de explicar o que é
a França e é por isso
que não devemos nos espantar
com o fato de tantos de nossos concidadãos
não estarem integrados. Como
podem eles fazer isso se nunca lhes
explicamos para que país vieram?
P.:
O futuro da UE pode ser republicano
no sentido que a França compreende
isso?
R.:
Eu seria arrogante se quisesse que toda
a Europa fosse republicana ao modo francês.
Pelo menos, existe uma questão
que está sendo colocada e essa
questão é a de saber se
a Europa possui fronteiras, ou se isto
é apenas uma idéia abstrata.
Eu acho que a Europa possui suas fronteiras,
o que significa que ela também
possui a sua identidade. Se todo mundo
tiver o direito de ingressar na Europa,
não haverá mais Europa.
Não conseguiremos grande coisa
colocando pessoas demais em torno da
mesa. Discute-se se a Turquia deve ou
não aderir à Europa. Essa
questão está mal colocada.
A questão é saber em que
nível de ampliação
a Europa deixará de ser a Europa.
P.:
O Senhor propôs uma nova fórmula
de identidade nacional e de tradição
francesas. O Senhor já citou
Jean Jaurès, Léon Blum
e o partido comunista – “partido
dos fuzilados” durante a guerra.
Na política francesa, este é
um novo tom. Como se diz na França,
“é o tom que faz a canção”.
Que canção, Senhor Presidente?
R.:
Para ser eleito na França, é
preciso conhecer sua história
e sua literatura, é preciso citar
os grandes autores e poetas. Trata-se
de uma especificidade francesa, que
obriga as pessoas a se referirem a Victor
Hugo, a Verlaine e a Jaurès.
Entretanto, não existem duas
histórias da França, a
da esquerda e a da direita. Existe apenas
uma História da França.
E nós somos todos seus herdeiros.
P.:
A composição de seu governo
refere-se a uma novo tipo de unidade.
Nele, encontramos Bernard Kouchner,
ministro das Relações
Exteriores e a Srª Rachida Dati,
ministra da Justiça. Seria o
fim da tradicional divisão esquerda-direita?
R.:
Eu, pessoalmente, sou um homem de direita.
Os franceses votaram por um projeto
claro, portanto existe uma estratégia.
Mas, para colocá-la em prática,
preciso dos melhores. Ora, os melhores
não estão apenas na direita.
P.:
Esta tática não foi utilizada
apenas para o período eleitoral?
R.:
Não, eu sou a favor das mudanças
e estou muito satisfeito com o Sr. Kouchner.
P.:
Qual é o sentido e o alcance
da política de abertura que o
Senhor iniciou logo após a sua
eleição para a Presidência
da República?
R.:
Eu quis essa abertura porque o dever
de um presidente é o de reunir
uma maioria e o dever de uma maioria
é se abrir. O Presidente da República
não pode ser o homem de um partido
ou de um clã. Ele é o
homem da Nação.
Meu
projeto para França é
ambicioso. Quero reformar profundamente
nosso país para modernizá-lo.
Como as mudanças serão
fortes, preciso de uma maioria ampla.
(...)
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