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Política Internacional
e Diplomacia |
Artigo
do Ministro francês das Relações
Exteriores,
Philippe Douste-Blazy, publicado no
jornal “Les Echos”
Paris,
15 de maio de 2007
"Aids
e G-8: a hora da verdade"
Aids:
30 milhões de mortes, 42 milhões
de pessoas em sursis, esperança
de vida que cai de 63 para 37 anos em
uma parcela significativa da África.
Uma parte crucial da resposta que se
impõe encontra-se hoje nas mãos
do G-8.
Em
2005, o G-8 comprometeu-se a fazer com
que, até 2010, todos os doentes
de Aids tenham acesso à triterapia.
É verdade que já houve
progressos: segundo o relatório
das Nações Unidas, divulgado
em 17 de abril, 28% das necessidades
de retrovirais estariam cobertas nos
países de renda baixa ou intermediária.
Mas esses avanços não
devem mascarar a terrível ameaça
que continua pesando sobre o futuro
dos países mas desfavorecidos.
A saúde, capital humano de um
país, continua sendo, vale lembrar,
seu primeiro fator de crescimento. Não
podemos esperar mais, sob o risco de
ver todos os esforços de desenvolvimento
dos cinqüenta últimos anos
definitivamente comprometidos.
A
próxima reunião de cúpula
do G-8 será realizada nos dias
6 a 8 de junho, na Alemanha. Quais são
as condições desse encontro
decisivo? O primeiro obstáculo
ao acesso universal aos medicamentos
é bem conhecido: o problema do
preço. Uma triterapia custa entre
8.000 e 26.000 euros por ano, enquanto
que a renda anual média de um
africano fica no patamar de 500 euros.
Existem muitas versões genéricas
desses medicamentos, da ordem de “apenas”
120 euros por ano, mas, por causa das
patentes, elas são lícitas
apenas em poucos países. O G-8
evocou esse problema na reunião
de cúpula de junho de 2006, lembrando
que, segundo a OMC, os países
em desenvolvimento têm o direito
de quebrar as patentes e importar genéricos
com fins de saúde pública.
As condições para uma
flexibilidade existem, desde que se
tenha a coragem de utilizá-las.
A Tailândia o fez em dezembro
passado e o resultado dispensa qualquer
comentário: em quatro meses,
os preços já caíram
mais de 55%.
É
esse mesmo objetivo que a UNITAID persegue:
tornar os medicamentos acessíveis
a todos, interferindo nos preços
do mercado mundial graças à
concorrência dos genéricos.
Trinta e quatro países já
se comprometeram a fornecer à
UNITAID financiamentos de longo prazo
para lutar contra a Aids, a malária
e a tuberculose. Esses novos recursos,
essencialmente produtos da contribuição
de solidariedade sobre as passagens
aéreas, já em 2007 somam
300 milhões de dólares.
O dinheiro é o ponto nevrálgico
da guerra contra as três pandemias:
arma de negociação, arma
de convicção, que possibilita
o incentivo à concorrência
em benefício dos países
mais pobres.
Citemos
um exemplo: os medicamentos para as
600.000 crianças doentes de Aids.
A maioria deles vive nos países
pobres e os laboratórios ocidentais
não estão inclinados a
desenvolver medicamentos adequados.
Um mês após seu lançamento
oficial em Nova York, a UNITAID mobilizou-se
e assegurou aos laboratórios,
a partir de outubro de 2006, compras
maciças e duradouras de anti-retrovirais
pediátricos. Em alguns meses,
laboratórios genéricos
indianos deram continuidade à
iniciativa e as primeiras entregas de
medicamentos acabam de ser feitas. Nada
menos que 100.000 crianças vão
poder ser tratadas ao longo do ano de
2007 e 45.000 já estão
sendo tratadas. Se considerarmos que
apenas 15.000 crianças soropositivas
tinham acesso a um tratamento nos últimos
anos, podemos ver quanto caminho já
foi percorrido!
A
lógica subentendida pela UNITAID
é revolucionária em vários
aspectos e, no entanto, é apenas
uma questão de bom-senso: trata-se
de utilizar uma parcela ínfima
das riquezas geradas pela globalização
- no caso, o crescimento do tráfego
aéreo de 5% a 8% ao ano, para
reduzir a fratura sanitária mundial.
A globalização pode regular
a globalização e contribuir
para a proteção dos bens
públicos mundiais - em primeiro
lugar dos quais está a saúde,
indissociável de qualquer desenvolvimento.
Essa
aposta no futuro pode ser ganha. A concorrência
genérica prevista nas cláusulas
de salvaguarda da OMC já possibilitaram
a divisão por 70 dos preços
das triterapias de primeira geração.
Para
chegarmos ao acesso universal ao tratamento
contra a Aids, precisamos agora abordar
sem rodeios dois temas fundamentais.
De um lado, a falta cruel de pessoal
da área médica: só
no continente africano há um
déficit estimado em um milhão
de agentes. De outro lado, o subfinanciamento
do Fundo Mundial de Luta contra a Aids,
a tuberculose e a malária, que
está equipado de maneira ideal
para encaminhar os recursos necessários.
Seu orçamento anual, da ordem
de 2 bilhões de dólares,
não é suficiente para
cobrir os 23 bilhões de dólares
anuais necessários à erradicação
das três principais pandemias.
Vinte
e oito bilhões de dólares
por ano: para o G-8, que concentra mais
de 50% da riqueza do mundo, isso representa
menos de um milésimo do PIB acumulado!
Mas, desde 2005, raros são os
países-membros que aumentaram
significativamente sua contribuição
financeira. Cada um contentou-se em
valorizar a sua própria política
de ajuda para o desenvolvimento, condicionando
todo e qualquer eventual aumento à
equiparação dos outros
países nessa área precisa.
Chegou
a hora de comprovarmos uma vontade política.
É uma questão de coerência
e responsabilidade coletiva: afinal
de contas, foram os dirigentes do G-8
que decidiram criar o Fundo Mundial,
em Gênova, há seis anos.
E o acesso universal aos tratamentos
em 2010, o qual o G-8 se comprometeu
a atingir em 2005, não é
um horizonte inacessível. Na
realidade, ele depende de duas questões
que podem ser resolvidas a partir do
mês de junho, por ocasião
da reunião de cúpula do
G-8: que proporção do
custo global do acesso universal o G-8
quer assumir? E como quer dividir essa
quantia entre os diferentes países-membros?
Isso representa, no fim das contas,
menos de 0,1% do PIB dos oito países
mais ricos do mundo. Na luta contra
as grandes pandemias, hoje a bola encontra-se
no campo do G-8.
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