REUNIÃO MINISTERIAL
DO G-7
SITUAÇÃO
FINANCEIRA INTERNACIONAL
ENTREVISTA DA MINISTRA DA ECONOMIA,
DA INDÚSTRIA E DO EMPREGO,
CHRISTINE LAGARDE, PARA O JORNAL “LE
FIGARO”
Paris, 14 de abril de 2008
Pergunta: Qual
é o roteiro de saída
para a crise imobiliária e
bancária americana que assombra
a economia mundial?
Resposta:
As três alavancas de saída
para a economia americana são:
o programa de relançamento
orçamentário, cujos
efeitos serão percebidos a
partir de junho; a vontade do FED
e do Tesouro de fazer uma intervenção
de concerto assim que se apresentar
um problema de amplitude sistêmica;
as recomendações feitas
aos bancos para esclarecer rapidamente
as suas exposições aos
riscos. Estas últimas medidas,
preconizadas pelo Fórum de
Estabilidade Financeira e aprovadas
pelo G-7, devem restabelecer a confiança.
Embora a amplitude da queda dos preços
dos imóveis continue desconhecida,
os Estados Unidos deverão sair
da crise até o final de 2008.
Se acrescentarmos que a economia européia
permanece mais sustentada do que alega
o FMI e que os países emergentes
continuam seguindo sua órbita
de crescimento muito positiva, o quadro
não é tão negro
como vem sendo pintado geralmente.
P.:
Qual é o elemento mais positivo
das reuniões de Washington?
R.:
O elemento mais positivo é,
sem dúvida, a vontade de ação
e o diagnóstico compartilhado
entre todos os membros do G-7 sobre
a natureza da crise e as respostas
que convém dar a isso. O clima
foi de muita cooperação,
todos compreenderam que era preciso
cerrar fileiras. As medidas de regulação
do setor bancário decididas
no G-7 para melhorar a transparência
são a melhor demonstração
disso.
P.
Os países do G-7 e, portanto,
os Estados Unidos, consideram excessivas
as flutuações das moedas.
Será que a tendência
pode se inverter, depois que o dólar
perdeu 8% em dois meses em relação
ao euro?
R.:
Não faço previsões
a respeito da evolução
das taxas de câmbio. No que
se refere ao G-7, observo que foi
a primeira vez, desde o outono de
2000, que ele manifestou sua “preocupação”
com relação às
flutuações das moedas.
Deixo aos Senhores o cuidado de julgar
quais moedas sofreram as “flutuações
brutais” descritas no comunicado
do G-7. Estamos todos preocupados
com as flutuações brutais
atuais e que são desfavoráveis
ao crescimento. Nossa vontade comum
é construir um sistema financeiro
internacional estável, pelo
bem de todos. Quanto aos Estados Unidos,
sua opinião pública
é sensível a duas coisas:
a taxa de desemprego e o preço
do litro de gasolina, sem falar das
expulsões. Ora, não
há a menor sombra de dúvida
de que existe uma relação
entre a fraqueza do dólar e
o aumento da cotação
do petróleo.
P.:
O G-7 fez recomendações
muito precisas aos bancos, que têm
100 dias para se adequar a elas. Isso
será suficiente para se recolocar
o sistema bancário americano
nos trilhos?
R.:
Quando se diz que os “bancos
devem agir urgentemente para melhorar
os padrões de compatibilização
e transparência das transações
fora do balanço patrimonial”,
não se trata de colocar em
questão o sistema da “fair
value”, mas de se encontrarem
mecanismos que possibilitem uma saída
da situação atual, onde
produtos sequer são mais cotados.
Tecnicamente, isso é possível.
P.:
O que lhe disseram os banqueiros dos
bancos privados no jantar de encerramento
do
G-7?
R.: Uma
dezena de profissionais, em particular
bancos de investimentos, reconheceram
sua responsabilidade coletiva. Eles
fizeram assim um “mea culpa”,
admitindo o excesso de cupidez que
levaram determinados operadores a
assumir riscos excessivos.
P.:
A revoada dos preços dos alimentos
provoca distúrbios ligados
à fome em uma dezena de países.
A reação internacional
está à altura do desafio?
R.:
Em termos de análise, está
claro que a crise financeira contribui
também para o aumento descontrolado
dos preços, com as matérias
primas tornando-se instrumentos de
aplicação. A FAO, o
Banco Mundial e o FMI deverão
cooperar para obter créditos
de emergência em prol particularmente
dos países que têm as
contas externas desestabilizadas por
causa da carestia dos produtos alimentícios
e do petróleo. Já existem
procedimentos de emergência.
Será necessário mobilizá-los
de forma eficaz. A política
africana da França visando
apoiar as iniciativas privadas para
desenvolver a economia dos países
da África será útil,
especialmente no setor agrícola.