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DISCURSO DO
PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA, NICOLAS
SARKOZY,
PERANTE O PARLAMENTO SUL-AFRICANO
Cidade do Cabo, 28 de fevereiro
de 2008
Senhora Presidente,
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Parlamentares,
Eu gostaria
de expressar-lhes a minha emoção
por falar perante o Parlamento de um país
que admiramos na França, quero dizer
seu país, a África do Sul.
Vendo com
distanciamento, o século XX surge como
um dos séculos mais brutais da história
da humanidade. O século XX representou
para a humanidade: duas guerras mundiais, um
genocídio, a shoah, ditaduras, exilados.
O século
XX foi, para o mundo, um século de ferro.
E a África, sua África sofreu
na carne toda a sua violência e horror.
A África suportou a colonização;
as conseqüências dos grandes conflitos
mundiais não lhe foram poupados, já
que seus filhos pagaram também seu preço
combatendo a serviço das potências
coloniais. Depois, vieram as lutas pela colonização
e novas vítimas, depois vieram conflitos
entre países africanos que acompanharam
o conflito entre o Leste e o Oeste. E depois,
como isso não bastava, foi preciso que
a África passasse por genocídios.
Mais do que
outros, a África foi vítima do
desprezo e do racismo.
E no entanto,
foi desse continente freqüentemente humilhado,
algumas vezes enxovalhado, e precisamente da
África do Sul, que veio bem no final
do século XX uma magnífica lição
de humanidade. Enquanto aqui reinava o apartheid
com suas violências, quando a vingança
e novas opressões poderiam ter nascido
de tantas humilhações, o povo
da África do Sul, guiado por homens fora
do comum, quis romper a longa cadeia de infelicidade.
Esse extraordinário
sucesso humano, que é o seu, deve muito
ao homem que, após 27 anos de prisão,
disse àqueles que o haviam privado de
sua liberdade por tanto tempo: “O opressor
deve ser libertado, tanto quanto o oprimido.
O oprimido e o opressor são, todos dois,
desprovidos de sua humanidade.” Peço-lhes
que acreditem que, em meu engajamento político,
esta frase contou muito.
E os Senhores,
os sul-africanos, escolheram deliberadamente
a reconciliação. Ao decidir tomar
esse caminho, eu vim dizer-lhes, na qualidade
de Presidente da República, que os Senhores,
de uma certa maneira, também redimiram
o século. Os Senhores permitiram que,
apesar das atrocidades do século XX,
esse século que foi o do horror, pudesse
ser concluído com um imenso sinal de
esperança para toda a humanidade, e não
significa pouco esse sinal de esperança
vindo da África.
É,
portanto, Senhoras e Senhores, impregnado de
respeito por sua Nação, que me
apresento diante dos Senhores, os representantes
desse grande povo da África do Sul, arautos
de uma sociedade mais justa e mais humana, por
ser mais fraterna. Foi para saudar esse povo
e a esperança que ele nos dá que
eu desejei vir aqui, à África
do Sul.
Porque a África
soube fazer nascer essa esperança, a
França quer trabalhar com a África
do Sul. Nosso mundo deve apoiar-se agora em
seu exemplo para dizer que não há
fatalidade. A França dá a essa
luta contra a fatalidade seus valores, a liberdade,
a igualdade e a fraternidade.
Mas a França
e a África do Sul, tenho essa convicção,
juntas, podem contribuir mais do que outros
para o surgimento de um mundo apaziguado.
*
* *
Esse desafio
comum, nós compartilhamos, em primeiro
lugar, para que a Europa e a África teçam
enfim novos laços; laços que não
sejam mais os da desigualdade, da exploração
e do ressentimento. À desigualdade, à
exploração e ao ressentimento,
quero opor a igualdade, a eqüidade e o
respeito entre a Europa e a África.
A relação
entre a França e a África é
antiga. Não quero evitar qualquer questão
e escamotear qualquer problema. A relação
entre a França e a África pôde
ser dolorosa e, como Presidente da França,
digo-lhes que já tive a oportunidade
de evocar os crimes e erros cometidos. E não
tenho a intenção de esquecê-los,
porque sei que, nesse continente, tem-se memória,
a memória dos antigos, a memória
das infelicidades e das dores.
Não
se deve esquecer também o que a França
deve à África. Penso particularmente
na preciosa ajuda que a África nos deu
nas duas guerras mundiais. E não esqueço
que a África do Sul combateu ao nosso
lado. A força desses laços não
pertence apenas ao passado, ela está
inscrita também na identidade francesa.
Os Senhores sabem, Meus Caros Amigos, que 10%
da população francesa pode hoje
reivindicar sua origem africana?
Ela está
inscrita também na identidade africana
através da língua francesa.
Mas, apesar
da profundidade e da antigüidade desses
laços, a relação da França
com a África, particularmente com a África
subsaariana, está se distendendo.
O número
de franceses que vivem na África, as
exportações e os investimentos
franceses para a África baixaram.
O resultado
é que nossos parceiros tradicionais na
África têm algumas vezes a sensação
de um abandono ou, no mínimo, de um desinteresse
da França por eles.
Essa relação
é complicada porque nela misturam-se
desde sempre a razão o sentimento e a
paixão, porque ela sempre foi carregada
de uma grande afetividade, mas também
porque essa relação está
defasada em relação ao que querem
os africanos e ao que vêem os franceses.
Hoje, digo-o
do fundo do meu coração, o antigo
modelo de relações entre a França
e a África não é mais compreendido
pelas novas gerações de africanos,
como também, aliás, pela opinião
pública francesa. Precisamos mudar o
modelo das relações entre a França
e a África, se quisermos olhar o futuro
juntos.
Sei mesmo
que, no seio desta Assembléia, alguns
dos Senhores, militantes da luta pela libertação,
ainda vêem essas relações
entre a França e a África através
do prisma da colonização. Sua
presença para me ouvir possui aliás,
a meu ver, ainda mais valor.
Encontramo-nos
numa situação onde nosso engajamento
político, militar ou econômico
ao lado da Africa é visto por muitos
não como uma ajuda sincera, mas como
uma ingerência neocolonial; mas, ao mesmo
tempo, tenham a honestidade de reconhecer que
alguns acusam-nos de indiferença, retração
ou ausência de engajamento, abandono ou
ingratidão. Para alguns, fizemos demais,
ou mal, e para outros, não fizemos o
suficiente.
Sei perfeitamente
que os africanos estão cansados de receber
lições de moral ou boa governança.
Eles consideram essas lições arrogantes
e condescendentes; mas, ao mesmo tempo, a sociedade
civil, a opinião pública da África
nos pede, a nós, França, nosso
envolvimento direto ao seu lado para denunciar
a corrupção ou a má governança.
Existe hoje
uma espécie de exceção
africana na opinião pública: o
que é considerado normal com outras regiões
do mundo faz nascer a suspeita quanto às
intenções do governo francês
quando se trata da África.
A Juventude
africana mantém com a França uma
relação ambivalente de atração
e contestação.
Atualmente,
mais de 100.000 africanos fazem estudos superiores
na França. Contrariamente às idéias
preconcebidas, nunca houve tantos estudantes
africanos nas universidades francesas. Entretanto,
a juventude francesa experimenta o sentimento
de que a França está se fechando
para ela.
Senhoras e
Senhores, é meu dever como Presidente
da República eliminar mal-entendidos,
denunciar esses paradoxos que revelam uma situação
que não é satisfatória
nem para os Senhores, nem para nós.
Tenho a convicção
de que a relação franco-africana
é plena de futuro, desde que lhe demos
um novo impulso.
Da mesma forma
que a África do Sul personifica uma nova
África, a relação franco-sul-africana
deve inspirar uma nova relação
entre a França e a África.
A França
e a África do Sul podem ter relações
exemplares, equilibradas e transparentes e,
se me permitem, sem complexos.
Os Senhores
tornaram-se nosso primeiro parceiro econômico.
160 empresas francesas desenvolvem parcerias
industriais e criam empregos.
Assinei esta
manhã com o Presidente Thabo Mbeki acordos
nas áreas da energia, dos transportes,
da ciência e do turismo que demonstram
a diversidade desses vínculos. Devemos
ir mais longe.
O nível
de desenvolvimento alcançado pela África
do Sul não explica por si só a
natureza de nossas relações. E
eu desejo uma verdadeira parceria entre nós.
Senhor Presidente,
Caro Thabo, V.Exª tem o hábito de
dizer que “a África do Sul não
pode ser uma ilha de prosperidade no meio de
um oceano de miséria”. A França
pensa exatamente a mesma coisa.
Quero afirmar
diante dos Senhores que a segurança e
a prosperidade da França e da Europa
são indissociáveis da segurança
e da prosperidade da África.
14 quilômetros
separam a África e a Europa pelo Estreito
de Gibraltar. Não compreender que nossos
destinos estão ligados é um contra-senso
histórico cujas conseqüências
seriam dramáticas. A Europa e a África
terão o mesmo destino em termos de segurança
e desenvolvimento.
O Renascimento
da África é o que a França
deseja. A França deseja o renascimento
da África com toda a sua alma, ela o
deseja de todo o coração, ela
o deseja em nome de tudo o que a une à
África.
Esse Renascimento
é o que a África do Sul quer.
Ela deu sinais disso. Ela deu o exemplo.
O Renascimento
não é, em primeiro lugar, uma
questão de meios. Ele é primeiramente,
Senhoras e Senhores, uma questão de mentalidade.
Mas, o que é o homem do Renascimento?
É o homem que acredita que tudo é
possível. O homem do Renascimento é
um homem que crê no Homem. E por crer
no Homem, ele pensa que o homem pode mudar o
mundo. O homem do Renascimento é um homem
cujos sonhos são maiores do que ele pode
realizar!
Para trabalhar
por esse Renascimento, a França quer
refundar suas relações com a África.
A França não quer estar na África
para perpetuar, sob outras formas, relações
desiguais que pertencem a um passado distante.
Se a França
quer refundar sua relação com
a África, a França deve começar
por reconhecer e assumir seus interesses na
África.
A paz e a
segurança do continente africano, a luta
contra a pobreza, o crescimento econômico
do continente, sua inserção na
globalização são, para
nossos respectivos países, interesses
comuns.
A França,
assim como a África do Sul, tem interesse
no desenvolvimento da África. Porque
as guerras, as pandemias, o tráfico e
o terrorismo na África terão conseqüências
diretas na Europa e na França. Se os
Senhores fracassarem hoje, isto será
um drama para nós amanhã.
A França,
assim como a África do Sul, têm
o mesmo interesse numa melhor regulação
da globalização. A globalização
entrou em nossa história. Seria ilusório
e perigoso pretender gerir as grandes questões
mundiais sem a África. A França
não aceitará que se possa tratar
das grandes questões do mundo sem que
um país africano tenha participação
nisso e fale em nome do continente africano.
Mas, será
que os outros dirigentes do mundo se dão
conta de que a Europa e a África representam
juntas aproximadamente a metade dos países
do planeta? E só juntos é que
os europeus e os africanos poderão ter
um peso na globalização. A África
do Sul é, para nós, um parceiro
na globalização. Nós temos
uma abordagem comum. E afirmo isso porque penso
realmente que é profundamente anormal
que o G-8 não dê um lugar ao G-5.
Não se pode pretender tratar das grandes
questões do mundo sem conceder um lugar
de igualdade ao G-5 e, portanto, à África
do Sul.
Penso o mesmo
a respeito do Conselho de Segurança das
Nações Unidas. Existe um bilhão
de africanos no mundo. Quem pode conceber que
a África não ocupe pelo menos
um assento como membro permanente do Conselho
de Segurança das Nações
Unidas? Isto é uma evidência.
Acho o mesmo
das grandes organizações internacionais,
como o FMI. Participei, Caro Thabo, como você
sabe, de meu primeiro G-8 como Presidente da
República em Heiligendamm. E constatei
que, durante dois dias e meio, nós trabalhamos
em oito países e que, para o almoço
do último dia, nós convidamos
– desculpem-me – dois bilhões
e meio de habitantes. Senti um certo desconforto
por esses convidados de última hora que
poderiam ter sido convidados na primeira hora
dessa reunião de cúpula.
Sequer um
país da América do Sul. Sequer
um país da África. Nem a Índia
ou a China. É necessária ao século
XXI a organização do século
XXI e não a organização
do século XX.
Portanto,
não nos cabe decidir quem representará
a África. Mas constato que a África
do Sul caminha na vanguarda desse continente;
que ela possui todos os trunfos para fazer com
que sua voz seja ouvida nesses foros.
O Presidente
Mbeki gratificou no passado a França
com o título de “Cidadã
da África”. A meu ver, trata-se
de um cumprimento e eu desejo que a França
o mereça.
Durante a
campanha presidencial francesa, expressei a
minha vontade de dar um novo impulso à
relação entre a França
e a África. Realizarei essa renovação
e peço-lhes que me compreendam.
Há
três semanas, no Chade, quando movimentos
rebeldes tentavam derrubar pelas armas as autoridades
legais do país, a França proibiu-se
de se imiscuir nos combates. Não autorizei
que sequer um soldado francês atirasse
em um africano, mesmo que, para mim, fosse conveniente
apoiar o governo legal do Chade. Trata-se de
uma mudança sem precedentes. Mas quero
ir mais longe hoje.
Essa mudança
precisa ser perseguida, porque a presença
militar francesa na África continua baseando-se
em acordos concluídos logo após
a descolonização, há 50
anos!
Não
digo que esses acordos não eram justificados
na época. Mas afirmo que o que foi feito
em 1960 não tem mais o mesmo sentido
hoje. A redação está obsoleta
e não podemos mais conceber, por exemplo,
que o exército francês seja levado
a participar de conflitos internos. A África
de 2008 não é a África
de 1960! A França levará isso
em consideração em suas relações
com seus parceiros africanos.
E quero, perante
o Parlamento da África do Sul, fazer
quatro propostas.
A primeira
versa sobre os acordos de defesa entre a França
e os países africanos. Eles devem refletir
a África de hoje e não a África
de ontem. Eles devem basear-se nos interesses
estratégicos da França e de seus
parceiros africanos. Não digo que se
deva necessariamente fazer tábula rasa
e apagar tudo com um único traço
de caneta. Mas digo que a França deseja
dar início a discussões com todos
os países africanos envolvidos para adequar
os acordos existentes à realidade da
época atual e levando em conta da melhor
forma possível a própria vontade
dos países africanos. A França
estará aberta ao diálogo com todos
os que desejarem tecer com ela uma nova parceria
em matéria de segurança.
A segunda
proposta é a seguinte: vou refundar nossas
relações com base em um princípio
que não existia antes e que imporei,
que é o princípio da transparência.
A transparência é a melhor garantia
para a existência de relações
sólidas e duradouras e o melhor antídoto
para os fantasmas e as incompreensões.
Contrariamente à prática do passado,
anuncio ao Parlamento da África do Sul
que todos os acordos de defesa entre a França
e os países africanos serão integralmente
publicados. Associarei igualmente de forma estreita
o parlamento francês às grandes
orientações da política
da França na África.
Em terceiro
lugar, proponho que a presença militar
francesa na África sirva prioritariamente
para ajudar a África a construir, como
é sua ambição, seu próprio
dispositivo de segurança coletiva. A
União Africana deseja dispor de forças
de segurança até 2010-2012? Pois
bem, que esse objetivo seja também o
da França! A França não
tem a vocação de manter indefinidamente
forças armadas na África e a África
deve assumir seus problemas de segurança.
Peço
que me compreendam: não se trata absolutamente
de um desengajamento da França na África.
É exatamente o contrário. Desejo
que a França engaje-se mais ao lado da
União Africana, Caro Thabo, para construirmos
o sistema de segurança coletiva de que
a África precisa, pois a segurança
da África é, naturalmente, em
primeiro lugar um assunto dos africanos.
Por fim, minha
última proposta visa fazer da Europa
um parceiro fundamental da África em
matéria de paz e segurança. Este
é o sentido da parceria concluído
entre nossos respectivos continentes em Lisboa,
em dezembro passado. É do interesse de
todos nós, pois uma Europa forte precisa
de uma África forte.
Mas eu sei
que a melhor garantia de paz e segurança
são a democracia e a justiça.
Então falemos de democracia e justiça.
A França deseja, para a Costa do Marfim,
que se realizem eleições livres,
justas e reconhecidas. Nenhum país pode
esperar alcançar o desenvolvimento sem
organizar eleições democráticas.
Faz tempo demais que esperamos por isso. O mesmo
é válido com relação
ao Zimbábue e o Chade, onde o enraizamento
da democracia exige, desde já, novos
esforços por parte de todos. E quero
dizer que a democracia e os direitos humanos
valem também na África e não
são uma condição exposta
a partir do exterior. A democracia e os direitos
humanos nada têm de estranho à
África. São aspirações
dos povos africanos que a França compartilha.
Em matéria
de desenvolvimento, desejo que a França
contribua mais ativamente para a luta que os
Senhores empreenderam contra a pobreza.
A França
manterá seu engajamento financeiro pela
realização dos Objetivos de Desenvolvimento
do Milênio. O Presidente Mbeki interrogou-me
e minha resposta é clara.
Mas eu quis
que a França interviesse de maneira mais
objetiva para favorecer a aceleração
do crescimento econômico. E que contribuíssemos
diretamente para a criação de
empresas africanas geradoras de empregos.
Foi por isso
que decidi lançar hoje uma iniciativa
de apoio ao crescimento econômico.
Esta iniciativa
será implementada pela Agência
Francesa de Desenvolvimento. Ela comportará
três componentes:
Vamos criar
um fundo de investimentos de 250 milhões
de euros para assumirmos participações
em outros fundos mistos ou temáticos,
de maneira a fazer com que as empresas africanas
se desenvolvam.
O segundo
componente é a criação
de um fundo de garantia dotado também
de 250 milhões de euros, a fim de facilitar
o acesso das pequenas e médias empresas
africanas ao crédito bancário
e ao capital.
O terceiro
componente será a extensão da
atividade da Agência Francesa de Desenvolvimento
em favor do setor privado, ou seja, o engajamento
de 2 bilhões de euros, que lhes anuncio
aqui, no espaço de 5 anos.
Ao todo, a
iniciativa da França mobilizará
portanto dois bilhões e meio de euros
em cinco anos destinados ao financiamento direto
ou indireto de 2.000 empresas africanas e a
criação de 300.000 empregos.
Com essa iniciativa,
o total dos compromissos financeiros franceses
bilaterais na África s subsaariana somará
portanto 10 bilhões de euros pelos próximos
5 anos. Quem ousará falar de desengajamento
da França?
Por fim, vou
concluir evocando um tema difícil, mas
de nada serve fazer viagens se não se
fala das questões difíceis.
Eu gostaria
de falar da relação entre a França
e a África com respeito às migrações.
65% dos 200.000 estrangeiros que se instalam
todo ano na França vêm do continente
africano.
Entretanto,
não se trata apenas de um fenômeno
Norte-Sul. A grande maioria desses movimentos
migratórios é interno ao continente
africano. A própria África do
Sul recebe, sozinha, cerca de um quarto das
populações migrantes da África.
A realidade
da imigração não é
satisfatória hoje. Ela não o é
para nós, mas também não
é para os Senhores. Vemo-nos confrontados,
europeus e sul-africanos, ao mesmo desafio.
500.000 pessoas entram ilegalmente na Europa
todos os anos e a amplitude do fenômeno
em direção à África
do Sul obriga-a igualmente a um número
enorme de expulsões. Quem poderia contentar-se
com uma tal situação?
Eu nunca disse,
porque não penso assim, que a imigração
é um fenômeno que seria necessário
combater. E sempre denunciei o escandaloso conceito
de imigração zero, que é
uma idéia perigosa e fora da realidade.
Tanto a França como a África do
Sul são nações que devem
uma parte de sua mola propulsora à contribuição
dos migrantes e não podemos esquecer
isso.
Nenhum país
no mundo pode se permitir receber, entretanto,
uma quantidade de migrantes que exceda sua capacidade
de acolhê-los dignamente, com trabalho,
habitação, educação
e cuidados médicos. O rompimento desse
equilíbrio gera fenômenos de desemprego
maciço, exclusão e guetos.
Todo Governo
tem, portanto, a responsabilidade de decidir
quantos migrantes está pronto a receber
em seu território e em que condições.
A França
está preparando uma reforma capital de
sua política de imigração.
Uma cota anual de novos migrantes acolhidos
na França será debatida e votada
todo ano pelo Parlamento. Esse teto comportará
subcategorias por motivos de imigração
– trabalho ou reagrupamento familiar.
Ela negociará com os países de
origem no âmbito de acordos de gestão
discutidos sobre os fluxos migratórios.
Não
se administra a imigração unicamente
por meio da decisão do país de
acolhida, mas também pela decisão
do país de partida.
Chegou a hora
de construirmos uma parceria euro-africana sobre
as migrações, com base em três
temas essenciais, a meu ver capitais:
Em primeiro
lugar, a pilhagem de seus cérebros. Este
é um assunto de extrema gravidade. Um
relatório da OMS de 2006 destaca essa
situação impensável: a
África suporta 24% do fardo das doenças
e não possui mais do que 3% do pessoal
médico em seu território. Como
os Senhores querem tratar seus doentes se todos
os médicos que formam partem para nosso
país para tentar encontrar um desenvolvimento
que não encontram em seu país?
É preciso pôr um fim à pilhagem
de cérebros. Essa situação
é insustentável. É preciso
evitar a partida definitiva das elites africanas.
Os Senhores
sabem que há mais médicos do Benin
exercendo a profissão em meu país
do que médicos do Benin trabalhando em
seu país? Os Senhores não acham
que o Benin, que é um dos países
mais pobres do mundo, precisa de seus médicos
mais do que a França?
Em seguida,
é necessária uma repressão
contra as cadeias de tráfico: já
é tempo de a comunidade internacional
mobilizar-se contra esse odioso tráfico
que explora a miséria de infelizes que
não têm outra esperança
senão na partida. Devemos ser mais severos
com esses escravagistas dos tempos modernos
que desonram a humanidade.
Por fim, o
co-desenvolvimento, a mobilização
das populações migrantes pelo
desenvolvimento dos países de origem.
Esse novo
canteiro de obras faz parte de um amplo pacote
de medidas adotadas durante a 2ª Reunião
de Cúpula UE-África-Lisboa. E
desenvolverei essa relação quando
passar a exercer, a partir de 1º de julho
deste ano, as funções de Presidente
da União Européia.
Além
da relação entre Estados, devemos
multiplicar os laços existentes entre
nós. Entendo que esses laços suscitaram
no passado muita decepção. E gostaria
especialmente de dizer o quanto desejo o prosseguimento
das reuniões de cúpula entre a
África e a França. Mas quero que
esses encontros mudem em seu método e
sua natureza. É necessário adaptá-las
quanto à sua finalidade e ao seu desenvolvimento.
É necessário
mudar as reuniões de cúpula África-França,
mudar os métodos e os objetivos. Sua
preparação merece mais diálogo,
os debates ganharão ao serem estruturados
de maneira diferente e cabe ajustar sua periodicidade
à dos outros encontros, no âmbito
da União Européia e da Francofonia.
Pode-se pensar enfim em lhes dar um caráter
mais concreto, fazer os balanços ou formular
as orientações.
Proponho que
a próxima reunião ministerial
de acompanhamento, que precederá à
próxima reunião de cúpula
já prevista para ser realizada no Cairo
em 2009, seja a oportunidade para nos pronunciarmos
conjuntamente sobre novas modalidades. Compreendam-me
bem: é por acreditar na necessidade da
amizade entre a França e a África
que não quero ter qualquer tabu na refundação
de nossas relações.
*
* *
Neste momento
em que se inicia o século XXI, tenho
perfeita consciência de que nossa geração
carrega a pesada responsabilidade de evitar
os dramas por que passou o precedente. A mensagem
de humanidade e reconciliação
vinda da África do Sul deve, portanto,
nos guiar.
Em meu escritório
em Paris, Meus Caros Amigos, existe uma foto
de Nelson Mandela, que me foi oferecida quando
veio à França no ano passado.
Quando olho esse rosto que, por todo o mundo,
tornou-se o rosto do perdão, penso sempre
em duas coisas que ele disse.
A primeira
foi durante a campanha de 1994. Ele dizia àqueles
por cuja dignidade havia brigado – tive
a coragem de lhe dizer isso – “Se
quiserem viver melhor, vocês devem trabalhar
arduamente. Não podemos fazê-lo
em seu lugar; vocês mesmos devem fazê-lo.”
A segunda
mensagem é a passagem no final das Memórias
de Nelson Mandela, quando ele diz – o
que é assombroso para nós: “Ninguém
nasce odiando outra pessoa por causa da cor
de sua pele, ou de seu passado, ou de sua religião.
As pessoas têm que aprender a odiar e,
se podem aprender a odiar, pode-se ensiná-las
também a amar.” Quando Nelson Mandela
fala assim, ele não pertence à
África do Sul, ele honra o mundo como
um todo.
Sua história
nos ensina que os homens só são
plenamente humanos graças a outros homens.
Seu país dá todos os dias uma
demonstração disso fazendo com
que coexistam os descendentes dos escravos e
os dos senhores; ao fazer coexistirem os descendentes
dos fazendeiros vindos da Inglaterra, dos Países
Baixos ou da França e os dos conquistadores
zulus e dos guerreiros khossas; ao fazer coexistirem
os descendentes dos meeiros vindos do Gujarat
e os dos mineiros vindos de toda a África
Austral.
Sua história,
Meus Caros Amigos da África do Sul, demonstra
que os valores de sua revolução,
assim como os da Revolução Francesa,
podem sempre possibilitar a transformação
do mundo. Juntos, sul-africanos e franceses,
nós cremos na igualdade dos direitos,
cremos na igualdade das dignidades, nós
recusamos o racismo.
Sua história
nos diz que o mundo, para vencer, precisa da
África, da voz da África, mas
de uma África firme sobre os pés,
de uma África viva e livre.
Viva a África
do Sul!
Viva a França!
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