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África

VISITA À ÁFRICA DO SUL

DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA, NICOLAS SARKOZY,
PERANTE A COMUNIDADE FRANCESA

Joanesburgo, 29 de fevereiro de 2008

Senhoras e Senhores,
Meus Caros Compatriotas,

Peço-lhes que me desculpem por nosso atraso, tenho a impressão de que os fiz esperar. Não me culpem, por favor! O caminho era longo e eu tive muito trabalho a fazer esta manhã na Cidade do Cabo, em Joanesburgo e muitos encontros. E, em primeiro lugar, um encontro muito comovente com o Presidente Nelson Mandela.

Como eu estava em Joanesburgo, eu queria, é claro, tirar alguns momentos para agradecer-lhes. Porque, se a França é um grande país de vocação universal, é porque existem 2 milhões de franceses que vivem por todo o mundo a aventura da expatriação. Sei que se trata de uma aventura positiva, exaltante, mas que não acontece sem um certo número de sofrimentos, porque alguns dos Senhores vivem afastados de suas famílias, tiveram que romper com hábitos. Estou muito convencido de que quando se vive a alguns quilômetros da metrópole, olha-se o que acontece na França com um pequeno aperto no coração. Não se pode ter o Presidente de seu país passando pela cidade onde se mora, sem que ele venha lhe prestar uma visita.

Quero dizer, em primeiro lugar, que estou consciente do que os Senhores representam para nosso país. E quero confirmar-lhes mudanças que prometi durante a campanha presidencial, especialmente no que se refere à escolaridade de seus filhos.

Esperem, não estou habituado a tanta confiança, os Senhores aplaudem antes que eu fale! Digo isso porque é realmente algo que tenho em meu coração. Se eu tivesse que viver como expatriado, não compreenderia por que escolarizar meus filhos num estabelecimento público, quando se está no exterior. Isso custa caro, enquanto que, quando se está na metrópole, é gratuito. Trata-se de uma injustiça num país onde está escrito “igualdade” no frontispício de todos os estabelecimentos públicos. Eu não aceitei essa injustiça.

Houve, aliás, um debate entre nós. Christine [Lagarde, Ministra das Finanças] poderia confirmá-lo. Ela compartilhava minha opinião, portanto, não é a ela que se deve querer mal. Existem aqueles que gostariam que fosse aumentado o número de bolsas. Era uma escolha que eu posso compreender. Que não quis. Preferi que se criasse a gratuidade total, ano a ano.

Por que eu quis isso? Porque pensei particularmente na classe média – perdão por essa expressão que não quer dizer nada. No meu entender, “classe média” são aqueles que são ricos demais para serem pobres e pobres demais para serem ricos. Enfim, vou dizer de outra maneira: são aqueles que são ricos demais para ter as isenções e suficientemente ricos para ter aumentos de impostos. É preciso pensar nesses aí. Portanto, decidi que se começaria pela última série do ensino médio e, no próximo ano, será a primeira. E tornarei gratuitos todos os anos de escolaridade, até o maternal, para que haja igualdade entre os franceses do exterior e os franceses da metrópole.

Os Senhores poderiam me dizer: mas por que não o fez logo de uma vez? Porque não possuímos os meios. É preciso começar dessa forma. Mas observem que comecei pela série mais cara. Eu poderia ter começado pelo maternal, que representa pouco. E sei de alguns que teriam podido esperar por bastante tempo.

A segunda mudança que eu gostaria de fazer – digo-o diante do parlamentar Eric Raoult, que saúdo aqui – é de que os Senhores possam ser franceses, cidadãos como os outros. Os Senhores elegem os senadores conhecidos como “do exterior”. Desejo que possam votar para deputados. Criaremos circunscrições. Portanto, estou preparando uma reforma da Constituição na qual os Senhores terão também o direito de votar para deputados. Admito que, em termos de poder aquisitivo, isso nada mudará para os Senhores. Mas, em termos de cidadania, os Senhores serão representados por deputados. Criaremos grandes circunscrições, naturalmente, mas os Senhores terão parlamentares.

Eu gostaria de explicar-lhes igualmente por que desejei fazer este discurso na África do Sul. Acho que, naturalmente, é preciso ajudar a África francófona, porque é a África que fala a nossa língua. Nós temos interesses nela, temos uma cultura e um passado em comum. Mas acho que é um erro achar que, na África considerada anglófona, a França nada tem a dizer. A França tem o que dizer à África do Sul. A África do Sul representa 40% da economia africana como um todo. E a África representa um bilhão de habitantes. Eu quis, portanto, fazer esses anúncios da África do Sul justamente para mostrar que a França está destinada a brilhar no continente africano. Por fim, imaginem que, entre a África e a Europa, existem 14 quilômetros de distância. Da Cidade do Cabo é um pouco mais distante. Mas, enfim, de qualquer forma, é o mesmo continente: 14 quilômetros pelo Estreito de Gibraltar.

A estabilidade e a segurança da Europa serão gravemente colocadas em questão se a África não vencer e eu quis, portanto, trazer as bases para uma nova relação entre a África e a França. Uma relação feita de eqüidade, equilíbrio, parceria. Assinamos acordos sem precedentes com a África do Sul. Desejo que a África do Sul seja dotada da energia nuclear civil francesa. Devo lembrar que a África do Sul foi o primeiro país a renunciar por conta própria à energia nuclear militar. Vale a pena ajudá-los a se desenvolver no campo da energia nuclear civil.

É claro que temos diante de nós os americanos e os japoneses, mas, afinal de contas, trata-se da França! Vamos apresentar o pacote para vencer. Criamos um “dream team” com a Areva, a EDF, a Bouygues e a Alstom. Colocamos todos os nossos trunfos de nosso lado. Eu disse ao Presidente Mbeki que estávamos interessados em tudo, da central de carvão ao gás, à energia nuclear, não é, Christine, você compreendeu bem isso? Tudo. E isso é muito importante, porque se obtivermos sucesso na África do Sul, obteremos sucesso na África como um todo.

Os Senhores sabem que eu luto para que a África do Sul participe das reuniões do G-8, transformadas em G-13. Porque considero inverossímil que oito países no mundo considerem-se suficientemente importantes para resolver os negócio do mundo sem preocupar-se com um país africanos, sem preocupar-se com os sul-americanos, sem preocupar-se com a China e sem preocupar-se com a Índia. Se meus colegas do G-8 não se dão conta de que isso é chocante, então eu quero abrir-lhes os olhos e pedir-lhes que compreendam que não podemos convidar 2,650 milhões de habitantes para o último almoço de uma cúpula. Eu, em todo caso, não quero me prestar a isso. Quero que o G-8 torne-se G-13. Desejo a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Diz-se que isso não funciona. Forçosamente, pois nós possuímos a organização do século XX. Estamos no século XXI. Organizamo-nos na época em que, na África, os países ainda não eram independentes. Precisamos mudar a organização. Quem pode pensar na ausência de sequer um membro permanente africano no Conselho de Segurança? Isso não faz sentido.

Além disso, anunciei a renegociação de todos os acordos militares.

Meus caros compatriotas, isso não significa que a França irá desengajar-se da África. Muito ao contrário, a França irá engajar-se ainda mais na medida em que teve a coragem de levantar o mal-entendido. Há alguns países que gostariam que mantivéssemos uma presença militar, então permaneceremos. Há outros que gostariam que evoluíssemos, portanto, evoluiremos. A França tem vocação para estar na África não só por meio de suas forças armadas. A França tem vocação para estar na África através de sua cultura, de sua língua, de sua experiência econômica, do investimento que irá fazer na formação das elites africanas, por meio da definição de uma nova política de imigração. Foi o que eu quis dizer. E afirmar-lhes que, para mim, falar perante o parlamento sul-africano e poder ser aplaudido por todos os componentes da África do Sul é importante. E a África do Sul é Nelson Mandela, é Thabo Mbeki. Foi esse país que, ao contrário do Zimbábue, soube fazer o caminho da reconciliação, soube estender a mão. Enfim, o homem que disse que, ao opressor, assim como ao oprimido, retiraram a humanidade, esse homem mostrou o caminho. E a boa nova do final do século XX veio da África, veio especialmente da África do Sul.

Nós não temos apenas coisas a dar à África, temos coisas a guardar dela também.

Se amo a África, aliás, é porque trata-se de um continente imobilizado pela dor, pela miséria, pela doença, por pandemias e que mantém uma tal força de viver, que possui tamanha juventude! Há 475 milhões de africanos com menos de 17 anos. A juventude do mundo está aqui. É preciso que a França fale à juventude do mundo e que esteja presente.

Por fim, meus caros compatriotas, eu gostaria de lhes dizer igualmente que estamos mudando a França. Os Senhores, que estão em contato com as realidades do mundo, não hesitem em dizer a suas famílias quando lhes interrogarem que o mundo está mudando, que ele não nos espera, que, se eu quero fazer essas mudanças na França, não é por ideologia, é simplesmente porque a idéia que eu tinha da França, nosso país, é a de uma França na liderança, uma França que dá o exemplo e não de uma França que se arrasta.

Para mim, como os Senhores sabem, as 35 horas... Trata-se sem dúvida de uma idéia formidável. Observem que essa idéia possui uma vantagem: é a única que não precisa de uma patente para protegê-la. Ninguém a roubou de nós, em nenhum lugar no mundo! Mas, se outros não fizeram a mesma coisa que nós, talvez seja porque os outros compreenderam que, se quisermos oferecer trabalho a todo mundo, se quisermos dar uma oportunidade de progresso a todo mundo, precisamos trabalhar mais e não menos. Se quisermos pagar as aposentadorias amanhã, se quisermos pagar a proteção social, se quisermos tratar de nossos doentes, será trabalhando mais, não trabalhando menos.

Encontramo-nos, em nosso país, numa situação em que havia cada vez mais jovens desempregados e cada vez mais qüinquagenários na pré-aposentadoria. Não sei por quê, mas há dois ou três anos venho me dizendo que um qüinquagenário não é assim tão velho! Antes eu não pensava assim, mas comecei a pensar dessa forma. Os Senhores compreendem, quero que a França mexa-se. Quero que ela progrida. Os outros têm o pleno emprego. Os outros têm mais crescimento. Vamos alcançar os outros. Mas vamos alcançá-los pelo único método possível: trabalhando, merecendo, fazendo esforços e recompensando esforços. Não existe futuro na ausência de trabalho, não existe futuro na ausência de esforço, não existe futuro da ausência de autoridade. E é isso que desejo colocar em prática em nosso país. E, naturalmente, o objetivo não é fazer política, embora o Presidente da República faça-o de tempos em tempos, mas se, no acaso das conversas em família, os Senhores puderem dizer-lhes “precisamos ajudá-lo”, será bem-vindo.

Além disso, eu gostaria de agradecer à delegação que me acompanha, aos ministros, a Christine Lagarde, que traz uma ajuda considerável. Tenho muita admiração por ela. Afinal de contas, a primeira mulher Ministra das Finanças em nosso país merece que os Senhores a aplaudam! (...) Eu gostaria de saudar igualmente Bernard Laporte, porque gosto imensamente dele. Ele estava tranqüilo em seu rúgbi e eu lhe disse: venha fazer política. Ele aceitou e estou orgulhoso de seu trabalho como Secretário de Estado encarregado dos Esportes. Eu gostaria também de saudar nosso Ministro da Cooperação, Jean-Marie Bockel e saudá-lo de modo muito particular.

Darei prosseguimento à política de abertura. Vou tentar explicar por quê: porque um Chefe de Estado é um homem que une, não um homem que divide. Alguém que é eleito Presidente da República não deve pensar apenas naqueles que votaram nele, deve pensar também naqueles que não têm escolha. Ele deve unir um país. Com todas as reformas que tenho a realizar, não posso fazê-lo apenas com a minha família política, apenas com aqueles que sempre compartilharam minhas idéias. Devemos nos unir à França. O fato de Bernard Kouchner, Fadela Amara, Martin Hirsch e Jean-Marie Bockel terem tido a coragem de “atravessar o rubicão”, ou seja, de não permanecerem sectários em sua própria família política e participar do reerguimento do país, faz-me agradecer-lhes, porque foi graças a eles que demos uma imagem de um país aberto, que une.

(...)